Blog de Formação

"Louvado sejas, meu Senhor, Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde E preciosa e casta."

Hoje, Dia Mundial da Água, somos convidados a refletir sobre o que ela significa e as ameaças que pesam sobre esse bem tão vital.  Sendo extremamente abundante e simultaneamente extremamente escassa, afinal, a água é fonte de vida ou fonte de lucro?

Por Papa Francisco, Carta Encíclica Laudato Si’:


27. Outros indicadores da situação atual têm a ver com o esgotamento dos recursos naturais. É bem conhecida a impossibilidade de sustentar o nível atual de consumo dos países mais desenvolvidos e dos setores mais ricos da sociedade, onde o hábito de desperdiçar e jogar fora atinge níveis inauditos. Já se ultrapassaram certos limites máximos de exploração do planeta, sem termos resolvido o problema da pobreza.

28. A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos. As fontes de água doce fornecem os setores sanitários, agropecuários e industriais. A disponibilidade de água manteve-se relativamente constante durante muito tempo, mas agora, em muitos lugares, a procura excede a oferta sustentável, com graves consequências a curto e longo prazo. Grandes cidades, que dependem de importantes reservas hídricas, sofrem períodos de carência do recurso, que, nos momentos críticos, nem sempre se administra com uma gestão adequada e com imparcialidade. A pobreza da água pública verifica-se especialmente na África, onde grandes setores da população não têm acesso a água potável segura, ou sofrem secas que tornam difícil a produção de alimento. Nalguns países, há regiões com abundância de água, enquanto outras sofrem de grave escassez.

29. Um problema particularmente sério é o da qualidade da água disponível para os pobres, que diariamente ceifa muitas vidas. Entre os pobres, são frequentes as doenças relacionadas com a água, incluindo as causadas por microrganismos e substâncias químicas. A diarreia e a cólera, devidas a serviços de higiene e reservas de água inadequados, constituem um fator significativo de sofrimento e mortalidade infantil. Em muitos lugares, os lençóis freáticos estão ameaçados pela poluição produzida por algumas atividades extrativas, agrícolas e industriais, sobretudo em países desprovidos de regulamentação e controles suficientes. Não pensamos apenas nas descargas provenientes das fábricas; os detergentes e produtos químicos que a população utiliza em muitas partes do mundo continuam a ser derramados em rios, lagos e mares.

30. Enquanto a qualidade da água disponível piora constantemente, em alguns lugares cresce a tendência para se privatizar este recurso escasso, tornando-se uma mercadoria sujeita às leis do mercado. Na realidade, o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável. Esta dívida é parcialmente saldada com maiores contribuições econômicas para prover de água limpa e saneamento as populações mais pobres. Entretanto nota-se um desperdício de água não só nos países desenvolvidos, mas também naqueles em vias de desenvolvimento que possuem grandes reservas. Isto mostra que o problema da água é, em parte, uma questão educativa e cultural, porque não há consciência da gravidade destes comportamentos num contexto de grande desigualdade.


31. Uma maior escassez de água provocará o aumento do custo dos alimentos e de vários produtos que dependem do seu uso. Alguns estudos assinalaram o risco de sofrer uma aguda escassez de água dentro de poucas décadas, se não forem tomadas medidas urgentes. Os impactos ambientais poderiam afetar milhares de milhões de pessoas, sendo previsível que o controle da água por grandes empresas mundiais se transforme numa das principais fontes de conflitos deste século.[23]

Frei Wagner José da Rosa, OFM[1]

“Uma ecologia integral requer abertura
para as categorias que transcendem a
a linguagem das ciências exatas ou da
biologia e nos põem em contato com a
essência do ser humano”. LS 11[2]

 I.     INTRODUÇÃO

     “É de pouquinho” e “comecemos pequenos” são duas expressões que para mim tem muita força simbólica. Em primeiro lugar porque quem as dizia, e era corriqueiro dela escutar, foi uma grande amiga que partiu de forma inesperada - Irmã Lucinda Moretti. Uma religiosa da Congregação das Irmãs de São José de Chamberry que doou sua vida pelo Reino de Deus.
Oriunda de uma família de agricultores familiares do sul do país, Irmã Lucinda, depois de adulta e de ter ajudado sua família a vencer a perda da matriarca, decide cumprir sua vocação de religiosa. Terminou a sua alfabetização na congregação e parte para a vida missionária. Foi para o Mato Grosso do Sul - MS e depois Rondônia e voltou para o MS.
Bem, porque falar de uma religiosa em um texto que quer falar sobre a CF (Campanha da Fraternidade) deste ano?
Simples! Pois quando falamos de biomas, falamos de vida. E vida não somente a mineral, vegetal ou animal como normalmente compomos um bioma em nosso imaginário. Mas falamos de também de nossa vida que é cultivada dentro dessa realidade natural que nos cerca. Somos moldados pela natureza em sua constituição.
Seguiremos nosso texto buscando compreender um pouco de como a Igreja vai adquirindo essa linguagem da questão ambiental e como se torna cada vez mais recorrente falar dela. Depois passaremos para o que de fato é um bioma e então concluiremos nosso “papo” tentando unir todos esses pontos que parecem soltos.

         II.     UM POUCO DAS CAMPANHAS DA FRATERNIDADE

     Nos anos 1970 a Igreja no Brasil começa a “despertar” para essa consciência necessária para com o meio ambiente. E assim várias campanhas da fraternidade irão desenvolver esse tema de forma direta ou indireta como veremos a seguir.
     Podemos perceber que em 1979, o tema da Campanha da Fraternidade foi: “Por um mundo mais humano”, e o lema: “Preserve o que é de todos”. Em 1984: “Fraternidade e Vida” com o lema: “Para que todos tenham vida” e em 1986: “Fraternidade e Terra”, e o lema: “Terra de Deus, Terra de irmãos”.
Entendo o tema da vida como sendo abrangente e conclamando para si toda a criação, por isso vida também para a natureza. Temas esses que não têm uma relação direta com o meio ambiente, mas que são sinais de uma Igreja profética em plena ditadura militar e que conclama a viver uma sociedade mais humana, plena de vida. Contudo, ainda não têm o apelo que veremos nas décadas posteriores.
     Na década de 1990, no período pós Constituição Federal de 1988, onde o país “dá os primeiros passos” para a democracia que renasce e os temas são voltados para o artigo 6º da Constituição: moradia, trabalhos, educação, dignidade; e para os excluídos e as excluídas de nossa sociedade, como: mulheres, jovens e negros.
     No ano de 2002 a Campanha da Fraternidade chama a atenção para a Fraternidade e Povos Indígenas com o belo lema “Por uma terra sem males”. Para falar de povos indígenas é necessário fazer um recorte no processo de destruição ambiental e da ganância de exploração dos recursos naturais deslocando os povos tradicionais de suas áreas com a prerrogativa de abertura das fronteiras agrícolas. Falácia mentirosa de aumento da produção para poder alimentar as pessoas. O que de fato está em jogo é o poder capital de posse da terra, de dominação e de produzir riquezas à custa da miséria de outros.
     Nesse contexto, gostaria de lembrar um texto mais atual do Papa Francisco. A Laudato Sí, 146 afirma que: “as comunidades aborígenes com as suas tradições culturais [...] quando permanecem em seus territórios, são quem melhor os cuida”. E continua denunciando:
Em várias partes do mundo, porém, são objetos de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projetos extrativistas e agropecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura (LS 146).

Nesta virada do milênio muito se falou sobre a questão da água, elemento fundamental para a vida e que mereceu em 2004 uma Campanha da Fraternidade com o tema: “Fraternidade e Água e o lema: Água, fonte de Vida”. Trabalhou-se muito nas comunidades sobre esse assunto.
No ano de 2007, o tema abrange desde a preservação à necessidade de atenção para a vida da Igreja na região da Amazônia, para com os povos que ali vive e para a vida missionária. Sendo o tema: “Fraternidade e Amazônia” e o lema: “Vida e Missão neste chão”.
Princípio da vida, início de tudo é o processo gerador do Deus da Vida, que tudo cria e percebe sua beleza. Contudo a beleza da criação se vê ameaçada de várias formas e emerge a necessidade de falar a esse respeito. E em 2011 o tema desenvolvido foi a Fraternidade e a Vida no Planeta com o lema: “A criação geme em dores de parto” (Rm 8,22). Um novo olhar sobre a criação é preciso, uma nova forma de ser e viver deve ser desenvolvida. Sem perceber que estamos destruindo a criação o homem corre o risco de se autodestruir.
Casa Comum, Nossa Responsabilidade foi o tema que acabamos de discutir no ano de 2016 e que teve o lema: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24). A tomada da responsabilidade sobre aquilo que deveríamos cuidar e de modo especial a questão do saneamento básico, fonte primeira dos grandes problemas de saúde que terminam nas grandes filas dos postos de saúde e hospitais de nossas cidades é de responsabilidade de cada um, mas também dever do estado. O ano para essa reflexão se findou e podemos nos perguntar: O que fiz pela casa comum nesse ano de 2016?
Depois de uma breve trajetória sobre os temas e lemas das Campanhas das Fraternidades que direta ou indiretamente fazem menção às questões do cuidado com a vida do homem e da natureza, chegamos ao tema deste ano que de fato tem muita relação com a vida de muitos povos e da natureza. Trata-se de um processo que visa entender como se dá as relações de reciprocidade entre o homem e a natureza, entre os seres criados, os seres animados e inanimados é na certeza de que “Deus viu que tudo era bom” (Gn 1,31).
Em 2017 o tema é Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida e o lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15). Agora conversaremos um pouco sobre esse tema e lema que muito me encantou pela sua possibilidade de desenvolver uma teologia da criação a partir da realidade concreta de cada povo e também da nossa responsabilidade para com o meio ambiente.

III. BIOMA
     Quando falamos de bioma, e de forma bem simples podemos dizer que é o resultado da conformação da vivência entre seres vivos e seres inanimados em um determinado espaço territorial, dizemos de um modo de ser da natureza em determinados lugares e incluindo aqui os seres humanos com seu modo de viver em cada bioma do nosso planeta.
     O Papa Francisco na Laudato Si, 139 nos recorda que:
Quando falamos de ‘meio ambiente’, fazemos referência também a uma particular relação: a relação entre a natureza e a sociedade que a habita. Isso impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos.
     Muitas Campanhas da Fraternidade já tiveram um “olhar” para a natureza, para o meio ambiente. Esses temas, porém, emergem nas Campanhas da Fraternidade assim como quando os mesmos ganham maior importância na sociedade. É de forma gradual que podemos perceber essa atenção da Igreja para essas questões, acompanhando a sociedade brasileira e mundial nessa grande necessidade de se pensar o seu jeito de estar no mundo.
Não quero fazer um tratado teórico da necessidade que vivemos do cuidado com o meio ambiente, mas de perceber como a estratégia de sobrevivência de nós, seres humanos, e da criação como um todo se molda e modifica. Como ela precisa de cuidado e atenção de todos nós.
Vários especialistas, em diversas áreas do conhecimento, têm escrito sobre o impacto que estamos causando no meio ambiente, acelerando os processos de mudanças que de maneira natural levariam milhares de anos. Também na área da teologia surgem pesquisadores como Leonardo Boff, Marcelo Barros, Afonso Murad, dentre outros que começam a ter um olhar mais carinhoso para com a criação e iniciam um processo de construção de uma ecoteologia. Fazendo uma teologia que perpassa toda a criação.

IV. UM POUCO DA PRÁTICA

     Iniciamos esse texto falando de Irmã Lucinda que viveu em pelo menos três biomas e no último, o Cerrado, depois de seus 60 anos de vida aprendeu a amar o que ele é: belo, produtivo, forte e necessário. Quando fiquei sabendo que esta CF teria essa temática foi inevitável não pensar em sua dedicação ao Cerrado.
Assim como os teólogos atualmente estão buscando desenvolver a ecoteologia, ela vivenciou a ecoteologia em sua vida. Alguém que conseguiu transformar o seu meio ambiente seja o natural com as matas, onde ajudou a desenvolver projetos de reflorestamento de matas ciliares, na preservação do cerrado e na sua utilização como fonte de renda em contraposição a toda a destruição que vem sendo feita para com o bioma cerrado; seja o das pessoas que estavam a sua volta, pois foi alguém que impulsionou todas as formas de vida a seu redor e com todo respeito que todos merecem.
     Tive a possibilidade de trabalhar com ela pelo menos 8 anos de sua vida. Nesse tempo pude observar a sua grande dedicação e responsabilidade em relação ao meio ambiente e a vida como um todo. Recordo aqui algumas ações que juntos construímos em nossa simples realidade do município de Juti, no Mato Grosso do Sul.
     As irmãs de São José de Chambery já desenvolviam um trabalho no município com os povos indígenas, mas foi com irmã Lucinda que fui conhecendo um pouco mais as aldeias e os acampamentos e assentamentos de reforma agrária. A comunidade tinha um fusca que utilizávamos para poder ir até a aldeia e os assentamentos. Mas mais de uma vez quando eu não estava para poder dirigir ela caminhou mais de 15 km para fazer suas visitas.
     Nestas visitas uma sacola e um chapéu eram seus companheiros. Na sacola algumas latas com sementes de hortaliças e/ou frutas, como melancia, melão... Com essa sacola ajudou muitas famílias a produzirem suas hortaliças e também as ensinava a preparar o espaço da horta, cercar, adubar, plantar e se preocupava também com vários outros aspectos da vida do povo.
     Por esse mesmo período também visitamos os acampamentos e assentamentos de reforma agrária. Nos acampamentos sempre estava preocupada com a situação do povo que estava nos barracos de lona e em situação de risco. Aí também contribuiu muito para a produção das hortaliças e criação de pequenos animais.
     Nos assentamentos sempre com a mesma missão e agora com ideias maiores, percebidas pela necessidade do povo. Ajudou em vários cursos de produção de sabão, de panificados, derivados do leite, da mandioca...
     O leitor deve estar se perguntando como tudo isso? Bem, nunca trabalhamos sozinhos, sempre fazendo pontes, ajudando a abrir caminhos para que o povo tivesse sua autonomia e pudesse fazer suas parcerias e também quando preciso lutar pelos seus direitos fomentando também a participação nos conselhos municipais e nas atividades regionais.
     Ações com a, recém criada, secretaria de meio ambiente e até mesmo antes dela já estávamos fomentando com o povo da cidade, pois no entorno da cidade muitos problemas de desmatamento e inclusive de destruição das nascentes, além das áreas de preservação e matas ciliares dos assentamentos e aldeias.
     Muitas outras coisas eu e irmã Lucinda realizamos juntos, ela muito mais presente que eu nas ações, pois eu tinha outras atividades e estudos nesse período. Mas gostaria de recordar alguns que para mim são importantes para nossa reflexão sobre esta campanha da fraternidade.
     Sempre procuramos motivar para uma agricultura que respeite a vida na sua diversidade, seja ela orgânica ou agroecológica. No ano de 2003 fomos para Anchieta – SC em um evento de agricultores familiares e uma das atividades era uma feira com os produtos e com sementes crioulas preservadas pelos agricultores familiares da região. Trouxemos algumas sementes e em uma reunião da CPT – Comissão Pastoral da Terra falamos do que vimos e sentimos nesses dias. O grupo reunido nos fez uma proposta de realizar uma feira em Juti.
     Compramos a ideia e em 2004, na quadra de esportes da escola municipal realizamos a nossa feira de sementes crioulas e produtos orgânicos. Bem simples, bem caseira, do jeito que conseguimos. Tivemos poucas pessoas, mas frutuosas discussões e percebemos a quantidade de coisas que tínhamos: produtos naturais do cerrado, produtos industrializados, sementes guardadas por famílias a anos e muitas outros produtos que nos motivaram a realizar outra e outra feira. A ideia foi crescendo e chegando parceiros e neste ano de 2017 a feira estará na sua 13ª edição e contará com o 6º Seminário sobre uso e conservação do Cerrado do Sul de Mato Grosso do Sul.
     Uma parceria que conseguimos, além das locais, e que ainda hoje é importante para a feira foi a UFGD – Universidade Federal da Grande Dourados, através da pessoa da professora doutora Zefa Valdivina, grande companheira e grande defensora da biodiversidade. Nessa caminhada de feira, muitos outros cursos para os agricultores familiares e indígenas foram realizados. Muitas formações, muitas atividades práticas, dentro e fora dos assentamentos. Nossa feira ganhou destaque fora do Mato Grosso do Sul.
     No caminho, muitas coisas foram sendo fomentadas, hoje no município temos além da feira anual um viveiro de mudas para reflorestamento, um banco de sementes, com tudo que é necessário para conservar as sementes crioulas ou nativas. Criamos também o Instituto Cerrado Guaraní que tem por objetivo dar assessoria e fomentar projetos de preservação e atividades que caminhem nessa direção, além de conscientização ambiental dentre outras atividades.
     Dentre muitas coisas que foram acontecendo nesse belo período em que pude compartilhar minha vida com a de irmã Lucinda em favor do bioma Cerrado eu guardo para a vida a sua simplicidade e seu querer ajudar de qualquer forma os que mais precisam. Mas sua simplicidade não era ignorante, mais de uma vez a acompanhei em mesas temáticas em universidades ou reuniões na Embrapa ou outros espaços com doutores nas áreas das biológicas e humanas.
     Bem, no dia 06 de agosto de 2013 um fatídico acidente de carro levou a morte irmã Lucinda e irmã Adelaide. Eu entrei na vida religiosa franciscana e fui para outros caminhos, mas o trabalho por nós iniciado continua e isso me deixa realizado. Mas o que eu gostaria de salientar com isso é que nossa vida é moldada pelo espaço geográfico que habitamos, e é de extrema necessidade preservar nossas raízes, nossas identidades pois somos fruto do bioma que habitamos. É só prestar atenção na sua alimentação, nos seus costumes, sotaque, modo de vida.

V. CONCLUINDO
O tema e o lema da Campanha da Fraternidade deste ano são muito pertinentes para lançar um olhar mais carinhoso para com as formas de vida que nos cercam e com as formas de vida que nos formam. Refirmo que somos fruto de tudo o que vivemos e sendo assim somos frutos também dos ambientes que nos rodeiam, corroborando com o Papa Francisco que escreve na Laudato Si, número 147: “Os ambientes onde vivemos influem sobre a nossa maneira de ver a vida, sentir e agir”.
Corroboro com Padre Nicolau Bakker em seu texto: CF 2017: Uma nova concepção de vida em que ele afirma que “é o bioma que define o viver, conviver e sobreviver do ser humano” é só olharmos para o modo de vida litorâneo e o de alguém da região central do país, ou do sul, ou da região norte ou nordeste, jeitos de ser brasileiro de formas muito diferentes e moldadas pelas matérias primas disponíveis e pelas configurações geográficas, geológicas, vegetativas e históricas.
Neste mesmo texto ele diz:
Cada bioma é resultado de forças cósmicas que mudam apenas a longuíssimo prazo e que ultrapassam em muito a capacidade humana de, de alguma forma, dominá-los. [...] O bioma “gera” o ser humano [...] não apenas nas feições do corpo, mas também nas da alma.
     É no bioma que vivemos, nos relacionamos, nos formamos e morremos. O bioma é gerador de vida, proporcionador da experiência de Deus que “viu que tudo era bom” (Gn 1,31). Precisamos reaprender a ter o olhar de Deus para com a criação e poder dizer que todo o criado é bom, é importante, é transmissor da mensagem salvífica de Deus.
     De forma bem concreta este ano falaremos dos biomas conhecidos por nós: Cerrado, Mata Atlântica, Amazônia, Pampa, Pantanal e Caatinga. Mas acredito que devemos ter um olhar mais atento às suas complexidades.
Cuidar dos biomas é muito mais do que cuidar da natureza. Cuidar dos biomas é pensar na criação como um todo, é pensar de forma integradora e geradora de vida. É pensarmos ações que o ser humano produz e que tem reflexos diretos na natureza, tais como: os rejeitos sólidos e poluidores das fábricas, nos venenos das lavouras de monocultura, no desmatamento desenfreado, nas favelas que se formam em torno de morros e rios, nos esgotos a céu aberto ou nos mares ou nos rios, pensar nos autos índices de crimes, nas populações carcerárias, na violência contra as mulheres e muitas outras coisas que assolam a nossa sociedade.
    
Bibliografia
Igreja Católica. Papa [2013-.... : Francisco]. Carta Encíclica Laudato Si': do Santo Padre Francisco sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulus: Loyola, 2015. 139p. (Documentos do Magistério, 7). ISBN 978-85-15-04294-4.
Bakker, Nicolau João. CF 2017: Uma nova concepção de vida fraterna pesquisado em http://portalkairos.org/cf-2017-uma-nova-concepcao-de-vida-fraterna/ 16:53 do dia 08/11/2016.



[1] Frade menor franciscano, cientista social e aluno do curso de teologia no Instituto Franciscano de Teologia em Petrópolis – Rio de Janeiro.
[2] Laudato Si número 11, página 14.
Caríssimas irmãs e caríssimos irmãos,
Que a Paz e o Bem estejam em vossos corações!


“Todas as coisas pequeninas da vida, quando postas em prática, concretizam o Minorismo. Mas também fazer o gesto que outra pessoa precisa e que ninguém se lembra de fazer. Fazê-lo com delicadeza, de tal forma que a gente se complete com o outro, para que ele também se sinta bem de Deus” 
(Dom Paulo Evaristo Arns)

                                                         

            Neste dia tão especial,  dedicado a Santa Rosa de Viterbo e Dia do Jufrista, publicamos mais um  Caderno Nacional de Formação. Esse material chega a sua XIV edição repleto de informação, formações, tanta coisa boa para partilharmos e espalharmos em nossas fraternidades, em nossas vidas!  Que hoje possamos refletir sobre a nossa caminhada, sobre o nosso ponto de partida. Quantos desafios encarados até então e quanto crescimento ao longo da caminhada. Recordo aqui uma frase que aprendi na minha fraternidade: Ser jufrista é fácil. O difícil é ser menor. Ela define muito sobre nossos passos nesse luminoso Ideal de Vida!  Ser Jufrista é muito fácil! Ser menor, eis o desafio do nosso dia a dia! A palavra minorismo vem do latim “minor”, que significa: pequeno, despojamento, simplicidade, humildade, serviço; palavras e ações que fazem parte do ideal que buscamos seguir e viver.  É preciso ser menor, ser pequeno para entender a grandeza do outro. Para Francisco de Assis, o humano vale somente aquilo que é diante de Deus e mais nada! Para ele a minoridade era a maior importância dentro da fraternidade, seus irmãos sempre eram chamados de menores, pois buscavam sempre  vivenciar a mensagem do Evangelho. 
             Estamos  no tempo quaresmal e somos convidados a vivenciar mais uma vez a Campanha da Fraternidade, o tema proposto deste ano é “ Fraternidade: Biomas Brasileiros e a defesa da vida” e  o lema: “Cultivar e guardar a criação”. Assim somos convocados a cuidar da criação seguindo mais um pedido do Francisco de Roma, que na  Laudato Si' pede-nos uma “Conversão ecológica” e uma “Espiritualidade Integral”. Para iluminar nossa reflexão, a entrevista desse caderno é com Roberto  Malvezzi (Gogó) falando-nos um pouco sobre a proposta da CF.  A  Ação Evangelizadora irá situar o lema em seu contexto original e seguimos com a Comunicação que nos chama para ouvir a voz e os ecos da criação. Na Formação Franciscana iremos refletir um pouco mais sobre  a beleza   e a  poesia  do Cântico das Criaturas,  fruto privilegiado de um poeta apaixonado,  transbordante de sabedoria de vida. E o encarte abordará também a Campanha da Fraternidade, a secretaria de IMMF preparou um material lindíssimo com uma proposta de encontro para que  nossos pequenos franciscanos também entrem nesta roda para cultivar e guardar a criação!
                E se quiser adicionar mais conhecimento, não deixe de ler o espaço da formação humana, que nessa edição apresenta um tema pouco conhecido e muito importante: racismo ambiental.  A formação cristã chega até nós com um questionamento: Qual o legado do Jubileu da Misericórdia para a Juventude Franciscana do Brasil? Quais compromissos assumidos a partir dele?
                E como continuidade do último caderno, a secretaria de finanças traz o tema gestão financeira, porém, nesta edição, partilharemos alguns exemplos de ações dos nossos Regionais, ideias que deram certo  e que você poderá levar para sua fraternidade local/regional. A  Animação Fraterna irá refletir sobre o cultivar o espírito fraterno dentro das nossas fraternidades.
                Na alegria  do dia que celebramos, rendo louvores  ao nosso Deus  por cada irmã e por cada irmão que a vida em fraternidade presenteou. “Foi na Jufra que eu encontrei e em São Francisco, meu verdadeiro Ideal”. Agradeço a cada um dos envolvidos na construção de mais um caderno, fruto de uma equipe abençoada! Que Santa Rosa de Viterbo continue sendo espelho para nós jufristas que buscamos seguir o Cristo nos passos de Francisco!
Um lindo dia para todos nós! Celebrem com muita alegria em suas fraternidades!

Grande abraço e um cheiro para cada um de vocês!

Juliana Caroline Gonçalves Almeida

Secretária Nacional de Formação (2016-2019)


Natal: Um Presente de Deus


“Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros, e ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz” (Isaías, 9:5).

Natal. Família reunida, mesa posta para a ceia, brincadeiras, amigo secreto e troca de presentes. Há toda uma mágica. Surge aquele sentimento de euforia, um desejo de sorrir para desconhecidos, de fazer o bem e ajudar o próximo. Um momento de amor.

Natal, de acordo com o dicionário Aurélio, significa “relativo ao nascimento (...). Dia em que se comemora o nascimento de Cristo [25 de dezembro]”. Para nós, cristãos católicos, têm-se o significado espiritual, a recordação de que o Filho de Deus se tornou carne da frágil humanidade para a nossa salvação.

“Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo de seus pecados” (Mateus, 1:21).

A humanidade ganhou um presente, um plano divino concretizado pelo “Sim” de uma jovem virgem e pela fé de seu noivo. Assim, o significado de Natal se torna ‘começo, recomeço, uma nova chance’, a confiança de Deus e o ‘acreditar’ do Pai em sua criação, Sua doação por nós.

O maior desejo de São Francisco era observar o Evangelho, segui-lo em tudo e por tudo, imitando com dedicação os “passos de Nosso Senhor Jesus Cristo no seguimento de sua doutrina”. Por amor a Ele, por entender a importância do Natal, São Francisco também presenteia a humanidade, de forma singela, na cidade de Greccio, no Natal de 1223, montando o primeiro presépio da história do Cristianismo.

“Hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolvido em faixas e posto numa manjedoura” (Lucas, 2: 11,12).

Seu intuito era fazer nascer Jesus Menino, fazer com que as pessoas entendessem a pobreza-humilhação do Filho de Deus na sua vinda ao mundo. Francisco queria que todos entendessem que o Natal deveria ser celebrado com alegria e generosidade para com os pobres e com os animais.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, no livro “Por que todos andam atrás de ti?”, explanou: “Gostamos de frequentar Greccio, nossa Belém. Nunca ninguém soube tão bem festejar o nascimento de Deus na terra dos homens: palha, despojamento, frades encantados e extasiados, homens e mulheres com tochas acesas e Francisco, feito um dançarino de Deus, cantando a glória do Menino das Palhas, do Menino Pobre, do Deus que se torna criança”.

Isto não podemos perder, o prazer de contemplar o Deus Filho, o Menino, o Salvador. A obra de São Francisco, o presépio, se torna isso: a representação do amor de Deus e das ações de Maria e José. Um lembrete de ‘Deus Conosco’.

Certa vez ouvi que deveríamos nos apegar ao sentido do Natal no dia 25 de Dezembro, lembrar do significado da comemoração, refletir sobre o Menino Jesus que nasceu para nos salvar. Não gosto muito desta ideia, porque aparenta que deveríamos lembrar do nascimento de Jesus somente nesta data. São Francisco considerava o Natal a festa das festas, mas vivenciava o Evangelho e Jesus em cada segundo, em cada dia.

Por isto, desejo que todos tenham um Feliz Natal, mas que também vivam o Natal todos os dias a partir desta data. Que cada um agradeça a Ele, que o contemple, o imite. Que ame o próximo e que distribua sorrisos. Que seja preenchido de felicidade e euforia, até mesmo nos dias difíceis.

Que todos os dias sejam um novo (re)começo, um Natal... Uma vida de Amor!

Paz e Bem!

Thaís Mota Guerra
Secretária Regional de Formação (Regional NEB4)
Fraternidade Luz de Assis – Eunápolis/BA